Hoje acordei com a certeza que não deveria ter saido de casa.
Estava cantando Fake Plastic Tree do Radiohead e Dois pra lá, Dois pra cá com Elis Regina. Era certo que havia algo de errado.
CERTEZA !!
Não deu outra, no retorno da arthur bernardes, atropelei uma senhora.
Quem faz um retorno, olha somente para o lado donde vem carros, a mesma coisa voce faz ao atravesar uma rua de mão unica. Por este mesmo motivo, vários brasileiros morrem nas ruas de londres. Eles olham e nao vem carro. Porém lá, os carros vem do outro lado e BAM ! Já era…
A dona Nilza, havia saido do hospital constantini, onde havia feito alguns exames, estava indo a lanchonete Macellus, tomar um café pois estava de jejum. As 11:30 ela teria novos exames a fazer no hospital. Entretanto nem ela e nem eu, esperávamos nos conhecer.
Ela esperou parar de vim carro na avenida e atravessou, não se ligou que estava poucos metros depois do retorno. Fiz a curva e
BAM !
Ela subiu no capo do carro e quando freiei, ela caiu pela lateral.
Não estava rápido estava parado e acelerei para fazer a curva, 30 km/h no máximo. Mas pelos gritos ela estava viva, dei graças a Deus e saí do carro pra ver o tamanho do estrago. Pelos berros tive a certeza que era uma idosa, já lembrei da osteoporose e a imaginei com o femur pra fora.
Ela estava caida e gritando, porém quando me viu, estendeu as mãos no intuito de levantar-se. Eu estava apavorado, nunca atropelei nem cachorro, não sabia o que fazer, mas para mim seria melhor que a velha não se mechesse, vai que fica paraplégica, ou algo do gênero…
Mas graças a Deus não quebrou nada, perguntei se estava bem (que pergunta mais idiota) e ela disse que sim! No que ela terminou de levantar um filho da puta de um motorista, chegou no local e disse me empurrando:
“Voce esta louco ?”
“Voce não viu a velha ?”
- LÓGICO QUE NÃO !!
Pelo tom da minha voz e a espancividade dos meus braços retirando as suas mãos de cima de mim. O cara voltou para o planeta Terra e se ligou o que estava fazendo. Ele vinha pela principal, para ele a velha estava muito mais visivel.
Queria saber como a velha estava, mas é incrivel como junta gente essas horas.
Fui obrigado a contar a historia pra todas as testemunhas oculares do fato, algo pior do que legenda. Como existe pessoas burras no mundo.
A aglomeração aumentou, começou um buzinaço, queria tirar meu carro do meio da rua, gente ligando para o siate, policia, bptran, anotando minha placa, meu carro aberto, eu preocupado com minhas coisas dentro, preocupado com a velha, preocupado com o que deveria fazer no dia de hoje e aquele povo só atrapalhando…
Então surge um cara lá de traz gritando, querendo me dar de dedo na cara: “A velha esta sangrando, voce viu o que voce fez ??”
Paciencia tem limite.
“Meu; vai tomar no meio do seu cu”
O dedo que vinha na minha cara, entrou junto com seu rabinho no meio das pernas, foi até engraçado ver a cara do rambo se transformar na cara do gatinho do sherek =]
Me cansei da ladainha e fui ver finalmente a velha, ela estava nervosa com a galera assim como eu, me contou que vinha do constantini (que é ali bem proximo) e que estava bem tirando os ralados nos membros.
- PRONTO, Entra no carro que eu levo a senhora lá !
Assim, em meio a alguns protesto o fiz.
Teve um cara que ainda me seguiu até lá, talvez para se certificar que não jogaria a velha na primeira lata de lixo.
No caminho D.Nilza contou-me a historio novamente, disse que tem plano de saude, que estava meio tonta e pediu para que eu não falasse nada: “Diga que eu cai e voce me trouxe.”
Assim fizemos
Chegamos no PA, ela contou a historia e enquanto aguardavamos o atendimento lhe dei o meu cartão.
Ela agradeceu e disse se quiser pode ir embora, outro em seu lugar, teria me deixado lá na rua mesmo…
Levando em consideração a quantidade de pessoas que se reuniram em tão pouco tempo, acho meio dificil o cara fugir =\
MAS ENFIM
A senhora, não se preocupe, terminando os curativos lhe levo pra tomar o seu café.
Ela gostou da idéia e logo foi chamada para o atendimento.
Esperei / fumei um cigarro
Esperei / fumei um cigarro
Lí a veja / fumei um cigarro
Lí a época / fumei um cigarro
Isto é / fumei um cigarro
Exame / cigarro
Finalmente vejo a médica que chamou a senhora andando pelo corredor, a chamo para conversar.
“oi, como esta a dona nilza?”
“já fizemos os curativos, mas a pressão dela esta muito alta”
“olha, na verdade eu atropelei ela.”
A cara dela que era linda e doce se transformou numa cara de paisagem, antes de terminar a frase.
Até então todos os funcionários achavam que eu era o ultimo bom samaritano do mundo:”ai que fofo, ajudando a velhinha”. Agora eu era o pau no cú que não teve pena da velha.
Puta merda, eu estava ficando tranquilo, não matei a velha, mas agora eu poderia ser acusado de homicidio doloso, uma velha fazendo hora-extra no mundo, cardíaca e agora com pressão alta.
E toma remédio, repouso, almoça, etc…
Entrei para falar com a senhora para ver como estava.
Estou bem, obrigada. A tontura passou, agradeço a Deus por mim e por voce, ainda bem que não foi nada grave, blá, blá, blá
Nos abraçamos, pedi que me ligasse se precisar de algo e essa foi a ultima vez que ví a Dona Nilza Vieira da Silva. Não me ligou, então acredito que esta tudo bem.
Ela é uma boa senhora e eu sou um bom menino, quem sabe nos encontremos um outro dia, ou como disse a Carol, tomara que ela seja rica e me deixe uma parte da herança =]
Cumpri com o meu papel, na verdade fiz bem mais do que diz a lei, mas não o fiz por medo de retaliação, vingança ou algo do genero. Fiz o que achei que era certo fazer, simples assim. Bom seria se todos tivessem o mesmo bom senso que eu.
O que levo de mais esse capitulo da minha vida: Deus existe mesmo e bom senso não é um dom coletivo.